terça-feira, 15 de maio de 2018

Feliz é quem nasce morto.


Em tempos de meninice
Caía chuva mansa sobre o chão
E sobre meus braços abertos.
Os pés descalços desenhando o caminho
Por onde passei e já não volto.

Feliz é quem nasce morto.

Mas eu já nasci e nem me importo
Ainda ontem brinquei sozinho
Descobri ,sem asas, o caminho dos ventos
E colhi todas as flores que cabiam em minha mão
Como se meu dia assim se cumprisse.

Feliz é quem nasce morto.

Fecha os olhos como se nunca os abrisse
Sem denunciar o ritmo do coração.
Velha casa, ninhos de passarinhos enchem teu teto
E o sol escorre pelas ruas devagarinho
Mas minha alma entra no abismo frio e violento.

Feliz é quem nasce morto.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

As sombras do bosque se mexem sozinhas.


As sombras do bosque se mexem sozinhas.

Os aldeões se reúnem para festejar
E demônios devoram crianças solitárias
Mas a música das festas encobre o choro.

Encha meu copo rápido
Com qualquer coisa mais forte que minha dor
Apenas tenha cuidado para que eu não perca o controle
E arrume briga com algum estranho que cruzar meu caminho.

Eu desenhei símbolos ocultos nas paredes
E falei coisas misteriosas para afastar o mal
Mas as almas dos mortos sussurraram no meu sonhar
E acordei banhado de suor.

Na hora do lobo, ouvi uivos em volta de um altar
O berço de uma criança cercado de alimárias
Que gemiam em coro.

Sou um homem que vive no passado
Onde as flores que brilhavam já não tem mais cor
Ainda menino, silenciado pelas buzinas da metrópole
Meu choro passeava sozinho.

Meus punhos tinham sede
E de sangue embebedaram até passar mal
Mas todos chegaram, só a mim viram e acertaram em falar:
- Este homem é um louco ou algo pior!

Até mais.


Pescador.

Pescador.

Pescador, lance sua rede
Mas ai que o peixe escapa pelo rasgão dela!
Costure e relance
Mas agora desde a tarde ao amanhecer nada vêm.

Pescador, lance sua rede
O vento não ajuda sua vela
E tudo está fora de alcance
Pois os mares em seu profundo tudo retêm.

Pescador, lance sua rede
Deixe de lado a esperança
E saia de fininho, de mãos abanando
Ao chegar em casa teus passos causam apreensão
Mas eles nada entendem, são apenas crianças
E já vão te abraçando.
Pescador, o oceano esconde tudo em sua imensidão.

Até mais.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Ainda não sei o final

Ainda não sei o final.

No começo eu era só um menino
Mas até as crianças conhecem as despedidas,
Os nomes das árvores e as cicatrizes nos joelhos.

Sentia saudade de você
E quando finalmente tive seu abraço
Me senti mais sozinho do que antes.

Descobri que só estamos acompanhados quando oramos
E quando as lágrimas são sinceras
A dor que as causa é menor.

Numa manhã de inverno a névoa irá te envolver
Mas meu amor, ela não sabe do nosso passado
Um bom amigo é bem mais que um amante.

Não me pergunte, não sei aonde vamos
Mas melhor seria ir ao campo ,daqueles de aquarela,
Melhor seria qualquer coisa que não fosse a dor.

E no fim de tudo eu era pequeno
Como alguém que nunca entendeu a vida
E morreu como se fechasse os olhos.

Até mais.

sábado, 5 de maio de 2018

Conto antigo

 Me lembro dela, já com alguma idade me contando na beira do fogão um conto dos antigos .
Conta-se que os primeiros homens tiveram de cultivar a terra e fazer plantações para se alimentar. Forjaram arados e enxadas de ferro, mas ao cavucar a terra essa gemia e chorava de dor. A terra reclamava constantemente e rejeitava as feridas feitas em sua superfície. Para resolver a situação, e não morrer de fome, eles entraram em acordo: a terra permitiria o seu cultivo sem reclamar para alimentar os homens enquanto esses vivessem e assim que morressem seriam enterrados para alimentar a terra.
A chuva que caía lá fora alimentava ainda mais o mistério. Imaginava a terra abrindo a boca para beber as gotas de água e percebendo nossos passos na lama, nos faria escorregar apenas por diversão.Mas verdade ou não, é certo que voltaremos a ela e conheceremos seu abraço.Andando em círculos, voltamos ao lugar de onde viemos.

Até mais.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O jogo das sombras

O jogo das sombras

Eu quis me lembrar de algo que não causasse dor
Mas minha memória não foi capaz de alcançar
Algo que nem meus sonhos de fantasia conheceram.
Mas lembro de ervas e galhos em flor
Um casa abandonada que um dia já foi um lar
Recitais de poemas que jamais se escreveram.

Menino pequeno, não tenha medo
Se o coração é uma chaga aberta
E a carne vermelha tremula em agonia
Todos os vivos vivem em degredo
E por mais que tentem, ninguém acerta
Pois todos os acertos acabam em erro um dia.

Eu vou me arrepender e pedir perdão
Por no dia primeiro ter respirado o ar profano
E enchido os pulmões de desgraça
Eu vou abraçar meus amigos em profunda solidão
Como o fascínio das luzes de fim de ano
Como tudo que simplesmente passa.

Como um bêbado que se afoga em vômito
Vou acabar me afogando em tantas mágoas
E a náusea faz o mundo rodopiar
Pois se os pesadelos habitam teu recôndito
Como o mar preenche a terra com suas águas
Chorar é o mesmo que sangrar.

Até mais. 

domingo, 22 de abril de 2018

Pluma de chumbo.

 Quando o tédio é longo a observação aumenta. O relógio na parede tem o mesmo ritmo e o ponteiro dá voltas sem fim. A vela se acende e instantaneamente se derrete e apaga. As formigas devoram um inseto morto, começando pelas patas, as asas e por último a barriga. É necessário dar ritmo e ordem para que as coisas se mantenham estáveis. Na hora de dormir cobria os pés, as vezes a cabeça (a qual jamais ficava virada para o cemitério velho, ao oeste. Todas as outras direções eram permitidas). A pior coisa é quando a sede obrigava a ir até a cozinha, em passos largos e correndo logo que a luz se apagava. Quando a janela ficava aberta numa noite quente de verão a luz fraca da iluminação pública rendia uma segurança a mais. O rosto experimentava o frio agradável da parede e conhecia cada rachadura e saliência dela. Conseguir encaixar metade do corpo no espaço entre o colchão e a parede também acrescentava estabilidade ao quadro. Por fim se balançava o pé até adormecer.
 Mas nem sempre o ritmo era obedecido. Certa vez indo da cozinha para a sala deslizei no ar ao invés de descer o degrau. Era como se houvesse uma rampa invisível de vidro escorregadio e liso. Tentando entender o fato voltei ao mesmo lugar, mas ele não se repetia. Não aconteceu de novo nunca mais. E isso era realmente desconcertante pois isso escapava ao meu controle. Não era possível conter em uma ordem ou um hábito. Nem mesmo passível de repetição. Mas embora a desordem enlouquecedora causada pelo evento não podia negar a sensação agradável de flutuar e deslizar no ar, sem peso.
 Me lembro de um livro de crônicas na biblioteca da escola que dizia que se abrirmos uma porta muito rápido podemos parar em outro universo. E me perguntei se não estava transitando em universos semelhantes ao meu e mudando de um lugar para outro equivalente a cada segundo. Realmente alguns dias o mundo não parecia o mundo e nem eu parecia eu mesmo. Mas em outros momentos a razão e a normalidade silenciavam essa paranoia, até que o teletransporte ocorresse novamente e jogasse minhas ideias no espaço.
Talvez fosse o momento de aceitar o impossível numa ordem maior do que meus olhos poderiam perceber.

Até mais ^^.