domingo, 19 de agosto de 2018

Guia de identificação do desespero.


E se você já sentiu tanto medo que sua cama ficou molhada de suor por três dias.
E ao encostar o ouvido na parede para ouvir uma conversa, fizeram silêncio.
Sombras em forma de pessoa sussurraram no seu ouvido a noite.
E a luz esquálida do sol te fez sentir como uma mariposa em direção a morte.
Se suas entranhas ferveram como piche 
E a negridão de teu próprio interior te envenenou.
A comida preparada pela mãe amorosa teve sabor de papel
E quando os pratos caíram no chão não soube dizer se foi de próposito
Então temos algo em comum:
Nada pode ser feito por nós.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Agário das moscas


O que diziam sobre como os demônios vieram para a nova terra:
"Fincaram as garras nos cascos dos navios."
Mas há quem diga que vieram no coração das pessoas.

E na floresta nova de pinheiros
Falaram de ruídos na alta noite
Quando a lua nova tornava a escuridão palpável.

Mas chegando em casa sinto teus beijos traiçoeiros
Que batem em meu coração como açoites
Minha amada, meu sonho inimaginável.

Certo dia preparo a espingarda
Te vejo serena dormindo 
Ponho o chapéu e vou caçar.

Uma lebre traiçoeira parte em disparada
Sigo devagar, temo que ela esteja ouvindo
Mas caminho muito, tenho a relva a me acusar.

Barulho de crepitar e sons de risos
Já esquecendo da caçada sigo o rastro
A luz avermelhada de uma fogueira ofusca a visão.

Mas distingo numa grande pedra sementes e esqueletos de ouriços
Cogumelos e raízes fervem num vaso de alabastro
Três mulheres nuas se tocam em confusão.

Com muita surpresa distingo minha vizinha
E com uma coroa de flores de figueira
Vejo o rosto de minha amada.

''Já não estamos sozinhas''
Elas correm rindo e ligeiras
E corro para casa com a alma cortada.

Abro de súbito a porta
Mas ela ainda está ali dormindo!
Percebo a terra e as folhas, ela se levanta com um bocejo

''Eu te amo e nada disso importa''
Diz ela enquanto me abraça se despindo
E me faz esquecer de tudo com um beijo.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Oração no meio-dia.


Ainda era a tristeza pouca
E os cravos cresciam na calçada
A chuva caía em halo, em volta da lâmpada amarela,
E já te lembravas de mim.

E quando só restou a vontade de chorar
E a voz rouca, se desfez
Tu me guiaste em palavras suaves
Para um lugar longe da dor.

Quando a mente se tornou louca
E todo o corpo, uma ferida magoada
Mandaste fria brisa, singela
Para me lembrar de meu fim.

Quando ingênuo, pensei saber amar
E as ondas se quebravam de revés
Em lágrimas nos meus olhos quentes
Ainda assim, me mostraste teu amor.

Não permita que me esqueça.

domingo, 8 de julho de 2018

A podridão nos ossos.

Eu vejo meu reflexo
Desaparecendo e ressurgindo
Nos vidros negros dos carros que passam
Enquanto o sinal não se fecha.

Eu vejo baterem na porta
Que mantenho sempre trancada
Enquanto a madeira parece se petrificar,
 Onde teias de aranha e musgo surgem nos umbrais.

A luz que dança na parede escorre por uma fresta
Como o tempo lança os dias que se acabam
Juntos na minha memória sorrindo
Com meu choro perplexo.

A esperança morre, não torna jamais
E minha alma se enche de pesar
Entristecida com a vida amargurada
Nos traços fundos de minha face morta.


terça-feira, 26 de junho de 2018

O quarto do filho


Na sala o pai lê um jornal
Na cozinha a mãe lava a louça
E se alguém estivesse atento ouviria o som das ondas:
No quarto do filho há um portal para o mar.

E a porta se fecha mais vezes do que se abre
É impossível entrar ali
E mesmo na limpeza semanal que a mãe realiza
Ela mal sabe que só toca a superfície.

O filho aparece molhado, escapou de um vendaval
O pai grita diante da televisão com força
Na porta do quarto um trovão estronda:
A tempestade não ameaça de acabar.

Faíscas da luta de sabres
Entre o filho e o direito de sorrir
É uma alegoria que se profetiza
Na solidão do lençol em planície.

Um dia o pai e mãe se estranham
Cuidadosamente adentram o recinto
E curiosos começam a perguntar
De onde vêm o som de passos que se distanciam?
De onde vêm o perfume de jacintos?
E, finalmente, quem morava nesse lugar?

terça-feira, 19 de junho de 2018

A mágoa e o bruxo.


Aquele menino sempre sentava no fundo da sala. Boné amassado, roupa velha e uma atadura em volta da barriga. A tal atadura era grossa e dava mutas voltas. Estava ali desde o primeiro dia de aula e até hoje não havia sido retirada. Os rapazes ouviram falar que ele foi atropelado por uma carroça carregada de tijolos nas férias e por pouco sobreviveu. O curativo devia esconder as cicatrizes, pois a essa altura o machucado já deveria estar curado, mesmo que grave.
A aula acaba e os meninos o seguiram em passos rápidos. Ele percebe e se adianta: por ter orelhas grandes todos caçoavam dele há tempos, assim ele se tornou super sensível a qualquer sinal de ameaça. Entra em um beco no caminho, que era usado para guardar lenha, mas estava vazio. Suspira aliviado... sem motivos, já o encontraram.
- Olha aqui, queremos ver tua cicatriz, e se não for por bem será por mal.
Inesperadamente ele reage com chutes e gritos mas os meninos são peritos em silenciar. O pai de um deles serviu no exército e lhe ensinou algumas técnicas. O seguram pelos braços e pernas de modo que não se mova e começam a desamarrar a faixa encardida, agora mais para causar dor do que por curiosidade.
O pobre rapaz sufocado esboça uma face de dor. A cada volta desfeita a faixa fica mais suja, manchada de sangue escuro e terra. Os meninos se assustam mas a demonstração de coragem os impede de parar. Logo na última volta, o menino esperneia os outros como se morresse e o mais velho puxa de súbito.
Entre a parte acima de seu umbigo e um palmo abaixo havia um vão na carne que ia até as costas, dividindo-lhe na metade. Essa lacuna estava preenchida por uma mistura de folhas e argila, que agora caía a e se desmanchava. O menino revirou os olhos num ultimo suspiro de dor e seu tronco continuou firme nos braços dos que o seguravam, enquanto os que seguravam suas pernas caíram sentados no chão com aqueles membros inertes que ainda pouco se mexiam. O corpo exalava um odor como se já estivesse morto há semanas e vermes emergiam da mistura de lama e sangue. Os dedos ainda tinham espasmos lentos e os olhos opacos encaravam fixamente.
Em desespero todos correram e não ousaram falar do acontecido.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Angústia


Gostaria apenas de não ter de ver
Nem reconhecer mais os rostos a minha volta
Sem luz ou escuridão.
Gostaria também de não ouvir
E que o silêncio inundasse minha vida
Aplanando todas as coisas na falta de significado.
E quem me dera não falar!
Pois não há nada que vale a pena dizer,
Simplesmente não há.
E se meu sentir fosse suprimido
E como uma pedra, eu não sentisse dor
Como se eu nem existisse.
E, meu coração, um filhote de pássaro medroso:
Quem dera cessasse suas batidas infernais!
E tudo parasse sem jamais voltar.
E nessa imagem do paraíso eu não fosse capaz de pensar
Eternamente fixo,sem perceber ou entender qualquer coisa
Como um profundo sono sem sonhos.
A morte ainda é pouco.