quarta-feira, 10 de abril de 2019

Eu acredito em morte antes da vida.

As costas pesaram, o ar estagnou, percebi tudo rodando e girando, em eixos aleatórias. Eu nunca era o centro daquela náusea, daquele nojo. Os tentáculos de um polvo negro subiam minha garganta.
Se pudesse vomitaria minha vida. Lançaria fora de mim essa gosma indigesta da alma e junto com ela todas as lembranças, sonhos e aprendizados. Escovaria os dentes para tirar o sabor ruim de estar vivo, de sentir. Um bom enxaguante finalizaria, deixando tudo asséptico .
Depois olhando no espelho já não seria eu, mas uma entidade mecânica. Altamente funcional por sinal. No vazio do pensamento realiza as tarefas e obrigações, pega ônibus, lê textos maçantes. Nada abala seu sono sem sonhos e sua constância metálica.Pelo fato de não ter alma seria apto e destemido. Realizaria tudo com sucesso e morreria indiferente. Mas na verdade a vida perniciosa atravessou meu estomago e se alojou dentro de meus ossos, apodrecendo. Não me permite viver nem morrer, mas sim uma eterna decomposição.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Salto no abismo

Se eu me sinto só
De certo é que me faltou o abraço primeiro
Pois todos os outros pareciam fora de tempo
Como um pesadelo de criança que se torna real
No adulto que acorda assustado com uma lembrança de meninice.

Quero abrir mão da esperança
Como quem supera o luto:
Um túmulo já sem flores,
Longe dos sonhos e das conquistas,
Que a terra sabiamente soube encobrir.

Se eu me sinto só
É por que minha pureza se revelou estéril
Como o brilho dourado de um ácido engavetado
Como uma manhã de domingo na qual se brinca na areia
E depois se luta para limpar roupas e sapatos.

Quero abrir mão de todos os dias lindos
Os verões de sol e os risos ingênuos
Sim, trocaria tudo pelo nada
Pois somente nele convém minha alma
Vazio sob vazio,na ausência de tudo.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O jardim das crianças mortas

 Fomos para uma praça pequena e vazia, cheia de dedaleiras e trombeteiras (no estilo de um jardim vitoriano). No centro havia uma pequena fonte com um anjinho derramando água de seu jarro. Também havia bancos de madeira onde nos sentamos. Chamavam aquele lugar de jardim das crianças mortas pois muitas mães enterravam ali seus filhos que morriam antes de nascer, atualmente apenas jogavam as cinzas. Alguma história dizia que ali elas podiam viver de um modo simbólico.
 Quando acabei de explicar a história do lugar me virei e percebi o modo como olhava para mim, com brilho. Abri o vinho que estava disfarçado em um saco de papel e bebemos. Você segurou o riso e engasgou, cuspindo um pouco por toda parte. Dei o último gole e rimos.
- Sabe, é bom estarmos aqui.
 Deus sabe como a beijei. Envolvi sua cintura com meus braços e ela me envolveu com suas pernas. As estrelas do céu, o anjo zombeteiro e o aroma das flores nos velavam. E se passaram alguns minutos longos suavizados pela embriaguez fraca. Naquele momento minhas mãos já percorriam toda a extensão dela e meus beijos desciam por seu pescoço. O relógio de uma igreja próxima bateu duas vezes.
E então percebi os risos. a afastei, ela ajeitou o cabelo e olhou em volta. Crianças pequenas corriam e brincavam. Gargalhavam e pulavam cordas. Uma menina entregava flores ao seu irmão. Outro riscava uma amarelinha no chão e convidava outros para pular. Nosso corações bateram confusos e fomos chamados para brincar. Algumas crianças corriam para as moitas e desapareciam e falas sem dono flutuavam no ar. A segurei na mão e nos levantamos. Abrimos o segundo vinho, escondido na fonte para não esquentar. Nos sentamos na beira dela e caímos para o delírio dos pequenos.
- Meu amor, veja como estamos molhados.
Ficamos lá os beijando sob o som de risos agudos. No jardim das crianças mortas tudo que podia ser e não foi, era.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Engraçado como as coisas são

Rosa vermelha na manhã
Que oferece por minha vida?
Uma gota de sangue, um grão de veneno
Quando bastaria teu perfume.

Se leva muito tempo para conhecer um homem
 Dias,madrugadas e noites, alguns fios brancos
Mas como continuar a travessia do oceano
Com a âncora travada entre as pedras?

Quando minha pele áspera e meu sorriso desarrumado
Alcançarem a leveza do ébrio que se entrega a perdição
Também teu sonho achará minha casa
E a possibilidade de novos mundos baterá na porta
O presente é o pretexto do passado.

Se leva muito tempo para conhecer um homem
Hora se doma com abraços, hora com gritos
Se perde o encanto daquele primeiro momento
Quando bastava um poema para sorrir.

 Rosa vermelha na manhã
Que oferece por minha vida?
Um leito de calor, um filho pequeno
Quando de teu Sol bastaria o lume.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Ensaio sobre a podridão

Primeira noite de jantar na casa da minha namorada.
-Fique calmo, eles vão gostar de você.
Me arrumei o melhor, mas ainda me sentia inseguro. Entramos, nos apresentamos e logo sentamos a mesa. Da cozinha se espalhava um cheiro metálico e ao mesmo tempo de carne assada.
- Sabe, só queremos o melhor para nossa filha. Nossa família é muito tradicional. Em que você trabalha?
- Sou restaurador, trabalho na biblioteca nacional, fica a duas quadras daqui.
Algum desconforto parece pairar no amor. Ela aperta minha mão e minha sogra (já pensei no casamento) vai buscar a janta.
Traz uma cabeça de criança degolada e escurecida pelo calor. Os olhos arregalados de peixe morto e o pescoço envolto num colar macabro de alface.
- O que está acontecendo aqui? Que merda é essa?
Minha namorada solta minha mão. Os pais dela me olham enfurecidos
- Está querendo nos criticar? Somos uma família tradicional e moral, é impossível que façamos algo errado.
- Eu vou ligar para a policia.
- Cale a boca e coma.
Enojado tento me levantar, de súbito ele me segura com força e as duas aproveitam minhas mãos estendidas sobre a mesa. Batem-lhe grandes pregos (desde quando havia martelos debaixo da mesa?). O grito ressoa por toda a sala.
- Veja bem, somos pessoas boas, não podemos aceitar que um imundo como você fale essas coisas. Nossa filha contou todas as imoralidades que você a influenciou a fazer, não há perdão para isso.
Olhei para ela, que estava ocupada mastigando uma orelha.O suor descia e escorria, a dor perfurante subia até as clavículas. Para minha surpresa e deleite de todos a cabeça queimada começou a falar, os olhos reviravam e o rosto ria. O pai, tirando seu cinto bateu em minha nuca.
- Imundo! Impuro! Vai ser purificado com fogo até que tua alma seja pura como a de uma criança.
A cabeça ria cada vez mais e todos repetiram o que o pai disse. Levantando rápido tentei arrastar a mesa e gritar por ajuda. Me colocaram de volta no lugar.
- Quem você pensa que é rapaz? Como você tenta se rebelar?
Juntos eles buscaram arame farpado na garagem e enrolaram na minha cabeça. O sangue que escorreu e caiu nos meus olhos me fez ver tudo avermelhado. Pude ver seus dentes afiados e garras. Outras partes de corpos antes ocultas se revelam: dedos e membros tremendo decepados. Eu estava morto. Ninguém me contou como escapar dali.

Cadafalso


Só queria dizer que sou maluco
Do tipo que rói as unhas
E deseja morrer assim que acorda.

Dizer que meus toques e passos se espaçaram
Como se em cada caminho ou abraço
Eu estivesse numa infinita queda.

Do tipo que tem vergonha do espelho
E ainda assim não consegue se ver em ninguém,
Sozinho em todos os momentos.

Só queria dizer que a loucura
É na verdade como um riso longo
Que persiste ainda que nada faça sentido
Um riso de dor.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Marionete

Acordei pela manhã
Como milhares de outros acordaram
E me olhei no espelho:
Tinha o rosto de meu pai, que tinha o rosto de meu avô, que tinha o rosto de meu bisavô e assim por diante
( Não possuía um rosto que era meu.)

Andei pelas ruas anteriormente pisadas por centenas de pés
E senti o calor de um sol impessoal e distante
Até minha revolta que parecia ser original
Foi desgastada em filmes dos anos 70, antes de meu nascimento.

Os meus íntimos complexos estavam descritos em livros e manuais
E atlas antigos conheciam todo meu corpo
O amor, cheio de paixão, era a repetição de uma velha história
De algum entediante poema grego.

A noite dormi 
O mesmo sono que muitos desconhecidos dormiram
Me preparando para viver uma vida que não era minha
Pois até mesmo eu nada podia ser
( A infeliz marionete de carne presa em paranoias.)